Para entender a volta de Twin Peaks e curtir sua super trilha sonora

Na sua volta, Twin Peaks acaba presenteando o público com um seriado com trama complexa, onde não é necessário que as peças necessariamente se encaixem, fazendo com que tudo que acontece nas cenas seja colocado num profundo e dinâmico mural de personagens e expectativas que interagem entre sonho, misticismo e realidade.

Twin Peaks

Twin Peaks foi um fenômeno pop da TV ainda no limiar do analógico para o digital bem no início dos 90’s.

Atualização semanal – Indo até o episódio 16 (29 Agosto de 2017)

E agora a série volta para uma terceira temporada após mais de 25 anos de seu último episódio ter ido ao ar na TV norte americana, causando um estranho frisson entre fãs da época e aficionados mais jovens.

Mas em se tratando de Twin Peaks, uma das séries mais bizarras da história, tudo mesmo pode fazer sentido.

Agente Cooper 2017

Na época foi uma verdadeira febre, com mais de 30 milhões de pessoas assistindo o episódio de estreia da série de David Lynch nos EUA.

Logo de cara uma morte, justo a queridinha da cidade… ou para muitos a perversa… a linda Laura Palmer, e que junto a um estranho agente do FBI (Agente Cooper) interpretado pelo ótimo Kyle MacLachlan, conquistaram corações e mentes de uma geração.

A história é realmente surreal, desnudando aos poucos segredos e intimidades de diversos personagens da mítica cidade, onde nada é tão pacato ou idílico como parece.

Tudo se desenvolve num mix de novela adolescente, trama policial e horror metafísico que fizeram da série um Cult instantâneo e que deu ao universo televisivo um repertório e estética até então inéditos.

Foram lançados livros, palestras e grupos de estudo tentando encontrar sentido nos estilhaços de uma história que girava ao redor do macabro mantra: Quem matou Laura Palmer?


Confesso que fui mesmo um desses maníacos por Twin Peaks, então posso garantir após assistir o ótimo episodio 1 que toda magia está lá, 100% intacta.

Elenco Twin Peaks

Mas se você é novato no assunto, nunca assistiu e não está entendendo nada da série ou do post, saiba que isso já é um bom começo.

Tudo em Twin Peaks é assim estanho, inclusive seus criadores que parecem super à vontade na lúgubre trama.

Mas quem mesmo matou Laura Palmer?

Por incrível que pareça essa é uma questão ao mesmo tempo simples e complicada de responder.

O responsável foi o pai de Laura, o obsessivo Leland, que com múltiplas personalidades desenvolveu em “Bob” um perverso alter-ego, que abusava de Laura por anos e anos até finalmente matá-la.

Na trama o Agente Cooper vai tão longe na busca da verdade que encontra o próprio “espírito do mal” que domina Leland vindo direto de um universo paralelo… numa trama complexa mas 100% sólida se considerarmos que em Twin Peaks as coisas são mesmo fora da caixa e que Bob como espírito maléfico que é, continuará sua sina de abusos sexuais e mortes.

Sem dúvida uma doideira sem limites da dupla Frost / Lynch, mas que ainda encanta em especial pela forma que se conta a história e pleno clima de pesadelo pop que se vê em cada cena.

Foi louco se reencontrar com Laura Palmer, com o policial Hawk , com a sensitiva Log e com o universo no mínimo bizarro da série, que tem na trilha sonora um dos seus maiores trunfos.

Em 1989, David Lynch e o compositor Angelo Badalamenti criaram o tema em pouco mais de 20 minutos, usando um teclado Fender Rhodes, com o diretor sugerindo que se a canção ficasse bem lenta seria mais bonita.

Nascia uma obra prima, onde os sintetizadores conseguiram mostrar toda neblina e cinza carregados com a morbidez da história, e fizeram que o som e as imagens da época ficassem impregnadas no inconsciente coletivo de gerações.

A trilha original da primeira temporada, parece mais atual do que nunca, talvez porque o synthpop voltou à ordem do dia, mas principalmente pela qualidade das composições e arranjos.

Na época o próprio David Lynch escreveu os versos das canções “Falling”, “The Nightingale”, “Into the night”, “Just You” e “Sycamore Trees” na primeira temporada, além de “A real indication”, “Questions in a World of Blue” e “The Black Dog Runs at Night” em Fire Walk With Me (segunda temporada) de 1992.

Toda trilha foi considerada brilhante e aclamada pela crítica da época, recebendo inclusive em 1991 um prêmio Grammy como melhor performance pop instrumental.

A trilha sonora original da série é conhecida como Music from Twin Peaks e foi lançada em três álbuns, a saber:

  • Soundtrack from Twin Peaks (1990)
  • Twin Peaks: Fire Walk with Me (1992)
  • Twin Peaks Music: Season Two Music and More (2007)

Recomendo todas, mas quando parecia que não existiam mais canções relacionadas à série, o próprio Lynch soltou online os “The Twin Peaks Archive”, com 215 canções não lançadas e não utilizadas na série.

A nova temporada começa com a parte musical brilhando como sempre, usando os temas originais com perfeição além de apresentar a ótima “Shadow” dos Chromatics.

O multi instrumentista Johnny Jewel também colaborou com a nova trilha e disse que adorou compor temas soturnos embebidos num synthpop retrô.

No episódio 03 temos a banda The Cactus Blossoms, liderada pelos irmãos Jack Torrey e Page Burkum.

Eles tocam a canção “Mississippi“, do álbum You are Dreaming (2016) num clima country & western bem legal. Confiram a canção:

Já no episódio 04 temos a super participação do Au Revoir Simone banda do Brooklyn que manda bem com a canção “Lark” de 2007, onde se destacam os super teclados e sintetizadores do trio de garotas (Erika Forster, Annie Hart e Heather D’Angelo).

O episódio também é muito legal, com super participação do próprio diretor David Lynch como o Diretor do FBI “Gordon Cole”, bem como o agente “Albert” interpretado pelo Miguel Ferrer (falecido em Jan-17) outro veterano original da série.

A outra canção que marca o episódio 04 da terceira temporada de Twin Peaks é um clássico do jazz, a super “Take Five” com o The Dave Brubeck Quartet, e que cria o ambiente para uma das melhores cenas da série.

O episódio 5 – Recap: Vegas Baby, é pródigo em sons legais.

Tem Johnny Jewel mandando “The Flame” e “Windswept” de seu homônimo álbum.

No lado retro, temos o girl group The Paris Sisters em “I Love How You Love Me”, sonzeira com produção de Phil Spector

Curti mesmo a dupla Unicorn, que manda um som sombrio nas pesadas “Habit” e “Tabloid” em viagens psicóticas de um metalcore industrial.

Mas o grande destaque acaba sendo mesmo o Trouble, que faz sua estreia planetária na série com a canção “Shake Eyes”.

A banda tem o filho de Lynch, Riley Lynch nas guitarras 🎸, que junto a Dean Huey nas baquetas e Alex Zhang Hungtai no Sax, se apresentam no Bang Bang Bar durante a introdução do personagem Richard Horne, que parece saído direto de Veludo Azul.

Já no episódio 6 – A Dark Age: Temos Cooper cada vez mais como Doug, e um anão assassino além de muitas e muitas mortes – o mais bizarro de todos episódios até o momento…

A morte espreita o agente Cooper… e o destaque musical é a fenomenal Sharon Van Etten, tocando ao vivo a ótima “Tarifa” e mostrando sua ótima banda e a super combinação de harmonias folk.

Sharon é original de New Jersey, já gravou os álbuns,  Because I Was in Love (2009), epic (2010), Tramp (2012) e Are We There (2014), além do EP I Don’t Want to Let You Down de 2015, se destacando por conseguir dar um frescor delicado, num gênero tão tradicional como o folk.

No episódio 7 (É um corpo, com certeza) – temos somente a doideira de tentativas de assassinato os quase encontros dos Agentes Coopers…: sem show no Bang Bang mas apresentando Santo and Johnny em “Sleep Walk” e a manjada Green Onions com Booker T. And The M.G.’s.

Santo and Johnny

Assustador é o episódio 8 – terror mesmo, apocalipse (Tem uma luz?) – que teve Nine Inch Nails em “She’s Gone Away” além de sons clássicos como “Threnody for The victims of Hiroshima” de Krzystof Penderecki, os vocais dos The Platters em “My Prayer” e o próprio Lynch com Dean Hurley na inédita “show 30’s Room”… doideras… doideras.

Ainda com a tradicional “América The Beaultiful” com a Banda das forças armadas norte americanas, o DJ escocês  Hudson Mohawke em “Human “e outra de Angelo Badalamenti – “The Chair”.

Fechando nossa mega atualização de Twin Peaks temos o episódio 10 (Laura é a escolhida) – que tem a volta do chato Doug e o nosso novo vilão assassino abusando até da própria avó… mas em compensação 5 sons muito legais… a maioria já na playlist como Johnny Jewel em “Slow Dreams” e Rebekah Del Rio com “No Stars” – com o eletrônico Moby nas guitarras em canção de David Lynch,

Rebekah Del Rio

Completam a trilha do episódio “Headless Chicken” mais um som novo de Angelo Badalamenti e Lynch, interpretado pela Thought Gang, o clássico antigão de 1936 “Charmaine” de Erno Rapee e Lew Pollack interpretado pela Mantovani and his Orchestra e outro clássico esquecido da cultura americana “Red River Valley” com o veterano ator Harry Dean Stanton.

 O episódio 11 – O Retorno: foi o mais intenso dessa reencarnação da série!!

Em uma hora de duração o episódio de Twin Peaks vai mesmo em direção à ruptura psicótica, abrindo com cortinas vermelhas ondulantes, que sugerem fogo ardente e a presença forte do mal.

Também inclui imagens e sons que nos lembraram o Episódio 8 (“Gotta light?”), com algumas das mesmas músicas que Lynch usou para marcar a odisseia espacial do mal e a eclosão da bomba atômica, reutilizando novamente a obra “Threnody para as vítimas de Hiroshima” de Krzysztof Penderecki.

No episódio cada cena atinge algum tipo de ponto alto bizarro, com Twin Peaks se apresentando de forma fresca e nova, não parecendo ser um revival de um antigo show.

Na trama, Bradley Mitchum (personagem de Jim Belushi) tem um sonho que ajuda a transformar Dougie Jones (na real o Agente Cooper), de inimigo em aliado, lembrando tramas do próprio David Lynch em Mulholland Drive.

Episódio 11

Se preparem… que vamos ter no episódio de cabeça implodida até “quase” zumbis, com momentos de humor subvertidos pelo terror característico da série.

Os destaques musicais do episódio foram: “Frank 2000” de Angelo Badalamenti e David Lynch com a “banda da série” a Thought Gang, a sonzeira de “Viva Las Vegas”, consagrada na voz de Elvis, na melhor cena do episódio em super versão da cantora e compositora Shawn Colvin.

Não tivemos nenhuma apresentação musical em Twin Peaks, mas a surpresa de termos o próprio Angelo Badalamenti ao piano no jantar que fecha o episódio com a inédita “Heartbreaking”.

Já o episódio 12 – “Let’s Rock”, acabou sendo bem mais leve que os últimos mas não menos intenso. Outro item importante foi a volta da trama para Twin Peaks, nos brindando a todos com personagens clássicos da série.

Depois do episódio 11 não ter nenhuma passagem no Bang Bang Bar, voltamos ao local entre cervejas em ação de merchandising bem explícita da Heineken, com cena incrível de DR entre amigos, e sonzeira instrumental da banda Chromatics, que já havia aparecido no segundo episódio da temporada.

Dessa vez tocaram a canção “Saturday”, composição de Johnny Jewel com seu projeto paralelo Desire que inclui dois membros “cromáticos”, o próprio Johnny Jewel e o músico Nat Walker.

No episódio a canção é interpretada pelos Chromatics de forma brilhante, usando a singela e assombrosa melodia como tema do fim do episódio, para alegria dos adeptos da série.

Chegamos ao episódio 13 – “Que história é essa Charlie” – com o personagem Dougie’s dominando de forma hilária o plot do episódio, com seu parceiro de trabalho sendo desmarcarado ao confessar que tentou matá-lo.

No Black Lodge, a tentativa de devolver o lado maligno do agente Cooper não prospera, garantido fortes emoções para a temporada, na melhor cena de Kyle MacLachlan como Mr.C, usando seus poderes mas sem nenhum glamour no ato de matar.

Já o sadismo aparece mesmo com o vilão Richard Horne em sequências brilhantes e bem violentas.

Dessa vez, a “performance da casa” ficou por conta do personagem James Hurley (o namorado secreto de Laura Palmer na temporada original), sempre interpretado pelo ator James Marshall, que canta uma estranha canção de Lynch/Badalamenti chamada “Just You”, fechando o nostálgico episódio.

Nesse episódio 14, tantas coisas se destacaram… mas entre elas a profusão de “Vórtices” e a volta de David Bowie marcaram presença e simbolismos densos na quase 1 hora de duração.

Bowie em Twin Peaks

Vale ressaltar o protagonismo dos personagens de Gordon Cole e Lucy, e o aparecimento de páginas desaparecidas do diário de Laura Palmer, dando pistas para entendermos o surgimento dos nossos Coopers do Mal e do Bem.

E na velha Twin Peaks as coisas estão mesmo bem agitadas, com visitas ao antro que foi o “Jack Rabbit’s Palace”, que se apresenta como uma árvore mística, conectando os mundos e as memórias de Bobby – o vilão real de toda série.

Com a chegada do “the Fireman”, tudo deve se tornar ainda mais louco com o personagem parecendo um deus encarnado pronto a dar luz às maluquices da trama.

A personagem mais bizarra do episódio foi mesmo a matriarca Sarah Palmer, mas vocês tem que assistir, não vou contar aqui…

Na parte musical surpresas no Bang Bang Bar com o Alt Country da cantora e compositora Lissie, em “Wild West” de seu recente álbum “My Wild West”.

A série evolui rápido e o episódio 15 – não é fácil desapegar, inicia com uma série de fatos insólitos, todos ligados à volta da trama para a cidade de Twin Peaks, com personagens se reencontrando e dando continuidade a pendências de décadas da trama de Mark Frost e David Lynch.
Musicalmente o destaque foi para o rock alternativo dos The Veils, que se apresentaram no episódio com a psicótica Axolotl.

Mas nesse episódio a ação de verdade no Bang Bang Bar, ficou por conta da luva verde e mágica do personagem Freddie que protagoniza cena de briga sensacional no Bar.
Também vale destacar a canção de Otis Redding – I´ve been loving you too long, que aparece marcando presença na série.
No episódio 16 – Sem Bater nem tocar a campanhia, tudo que um fãs da série quer começa de fato a acontecer, confiram:
  • No episódio finalmente Doug se transforma em Agente Cooper !!
  • Audrey Horne vai ao Bang Bang Bar e acaba mostrando sua dancinha mitológica para os presentes.
  • O novo mega vilão Richard Horne é filho do Evil Coop e tem fim inesperado no episódio.

Audrey Horne dançando no Bang Bang Bar

  • Sim !! Teve musical com Eddie Vedder do Pearl Jam, com seu nome de batismo “Edward Louis Severson”, tocando a super Out Of Sand, em clima intimista mega folk ao vivo no Roadhouse.

A cada episódio, fico já imaginando como vai ser a trilha da temporada 3, que com tantos artistas interessantes tocando ao vivo, vai garantir ótimos momentos e sonhos perversos.

Estão previstas 2 trilhas sonoras originais da nova temporada, ambas previstas para 08 de setembro, Twin Peaks (Music from the Limited Event Series) e Twin Peaks (Limited Event Series Original Soundtrack).

Todos 18 episódios dessa terceira temporada foram escritos e dirigidos por Frost e Lynch, e quase todos atores originais estão presentes.

A volta é um verdadeiro presente para os fãs que aguardaram 26 anos para retornar ao universo de Twin Peaks e também para as novas gerações que curtem as séries do planeta Netflix, e que agora podem sentir de perto o clima especial que a dupla Frost e Lynch conseguem imprimir nas telas.

Fiquem com nossa playlist –  Sons para curitr a volta de Twin Peaks

Sobre o autor(a):
Testemunha ocular e sobrevivente dos anos 80, com vasta experiência como público pagante de shows e festivais, amante dos melhores sons e estilos. Nativo Digital e idealizador do Blog Vishows. Blogueiro Ativista, Podcaster, Educador Social, Empreendedor e Profissional de Marketing e Comércio Eletrônico.

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