Entrevista com Jonathas Formagio: um dos maiores colecionadores do Nirvana no Brasil

No mês de aniversário de 50 anos de Kurt Cobain (Aberdeen, 20 de fevereiro de 1967 — Seattle, 5 de abril de 1994), entrevistamos um dos maiores colecionadores de material inédito do Nirvana no Brasil: Jonathas Formagio de 28 anos, morador da cidade de Osasco/SP.

Ele começou a sua coleção em 2006 e já se deparou com algumas faixas raras e desconhecidas da banda, conversou com pessoas de várias partes do mundo, atrás de material inédito, e criou um grupo no Facebook que resgata a memorabilia da banda no extinto Festival Hollywood Rock 1993, além de fazer parte de grupos fechados que mantém a memória da banda viva.

Veja abaixo a entrevista com Jonathas:

VS: Quando e por quê você começou a sua coleção de itens do Nirvana?

JF: Bom, acho que tudo começou com um disco do Elvis Presley que meu pai tinha guardado. Meu pai nasceu em 1937, era dois anos mais novo que o Elvis, então ele conheceu a carreira artística inteira dele. Lembro que ele comentava que esse disco era do meu irmão, filho mais velho do meu pai. Meu irmão era rockeiro e na adolescência ele chegou a ensaiar com a banda Ratos de porão, já que o Jão ainda mora no mesmo lugar de sempre, perto da minha casa.

Achava essa história muito legal, mas meu primeiro contato com o Rock foi em 1998. A primeira banda que ouvi foi Black Sabbath, álbum Sabbath Bloody Sabbath, me identifiquei na hora. O Nirvana veio no mesmo ano ou em 1999. Me apaixonei no primeiro instante que assisti a alguns vídeos do Nirvana, na extinta MTV. Na época eu gostava de bateria, mas lembro de ver o Kurt Cobain quebrando alguns instrumentos e pensei: “Quero ser esse cara!”. Depois disso comecei a me aprofundar na história da banda, e claro, na do Kurt Cobain também. Foi aí que tudo começou.

VS: Qual é o total da sua coleção atualmente?

JF: Acho que nem sei, hehe. Já comprei e vendi muitas coisas! A última foto que tirei da minha coleção física antes de tomar a decisão de vender tudo foi no início do ano passado. Depois disso acabei ficando apenas com algumas versões dos álbuns, os meus materiais do Hollywood Rock de 1993 (jornais antigos, revistas, fotos, livros, VHS’s, Cassette’s, souvenirs), e toda a parte digital que conta com um acervo de mais de 15 mil itens, 99% em qualidade profissional, áudio em .wav 44.1 khz/FLAC e vídeos em .vob, .mkv, etc..

Coleção de itens do Nirvana

VS: Dos seus itens atuais quais você considera mais importantes?

JF: Acho que todos os recortes antigos e fotos do Hollywood Rock, juntamente com algumas VHS’s da passagem do Nirvana pelo Brasil, incluindo o Soundcheck do Rio de Janeiro que eu divulguei no final de 2015, que inclui a única apresentação ao vivo conhecida de “Gallons of Rubbing Alcohol Flow Through the Strip”. Uma outra versão da mesma faixa apareceu como bônus na edição brasileira e internacional de In Utero, a faixa foi gravada nos estúdios da BMG Ariola no Rio de Janeiro durante a passagem da banda pelo Brasil.

“Todos os itens são importantes, mesmo aquela gravação que tem apenas 5 segundos de duração.”

VS: Eu sei que você tem acesso a algumas fitas com faixas raras da banda, como você consegue e quais são as histórias por trás de cada fita?

JF: Bom, nem sempre tive acesso a raridades assim. Comecei a me especializar na história da banda quando entrei em 2006 para o fórum do site livenirvana.com. Lá conheci pessoas e comecei a fazer amizades. Descobri que não existia muitas fotos e informações sobre os shows que o Nirvana fez em São Paulo e Rio de Janeiro, então comecei a divulgar tudo o que eu tinha, daí o pessoal foi mencionando o meu nome cada vez mais, até que comecei a fazer parte de um círculo ainda mais fechado de colecionadores. Foi assim que obtive acesso a gravações raras que não circulam na internet (por enquanto não, mas um dia irão!).

Inclusive já me encontrei pessoalmente com o dono do site, um londrino que mora na China. O site está ativo desde 2000 e antes disso os antigos membros americanos já usavam outros sites americanos, ou seja, conheço muitos dinossauros. Ganhei amigos e respeito.

VS: Você já descobriu algum material raro que era inédito na época?

JF: Sim, vários! Por esse motivo fui convidado para entrar para o grupo dos “Illuminati”, hehehehe.

Meu último achado foi um concerto inédito de 1989 que encontrei com uma pessoa na Inglaterra ano passado. Não posso comentar mais a respeito, mas em breve estará disponível para que todos possam ouvir.

Encontro esses materiais após fazer entrevistas com pessoas do mundo todo. Se encontro algo, tento criar confiança e, em seguida, pego emprestada a fita para que a mesma seja transferida de forma profissional.

VS: Você já teve acesso ao material do documentário mais recente Montage of Heck?

JF: Sim, logo que saiu eu comprei meu box super deluxe do Montage Of Heck. Na verdade Montage Of Heck foi um título que o Kurt Cobain deu para diversas colagens que eles fez em uma fita, colagens com áudios de vídeo, rádio, vinis, etc… Inclusive, nessas colagens existem frases e ruídos do Kurt Cobain, além de gravações demo. Essa fita já está entre os colecionadores há muitos anos e o tempo total é de 34 minutos.

O Brett Morgan fez um ótimo trabalho no quesito tentar liberar faixas inéditas que nunca seriam lançadas oficialmente. Mas ele editou e forjou muita coisa, além de deixar trechos de músicas raras escondidas somente no DVD Blue Ray, como uma versão da música Opinion em qualidade surpreendente e inédita. Até então só conhecíamos uma única versão de Opinion, gravada acusticamente no dia 25 de Setembro de 1990 na Rádio KAOS em uma sessão com o compositor Calvin Johnson.

Você pode conferir o trecho da versão inédita aqui: https://www.youtube.com/watch?v=287M0Gx6Gkc

Por esses e outros motivos, não gostaria que ele trabalhasse no próximo projeto do Nirvana/Kurt Cobain.

VS: Eu assisti recentemente o documentário Montage of Heck e deu pra ver um pouco de quem o Kurt Cobain era, longe do mito que criaram dele. A partir dos materiais aos quais você já teve acesso, você considera que grande parte da imagem que criaram para ele não corresponde ao que ele era?

JF: Sim, acho que a mídia manipulou muito a imagem do Nirvana e do Kurt Cobain. Infelizmente o sucesso traz essa parte negativa. O Kurt tinha problemas como todo mundo, era uma pessoa comum.

VS: E você como colecionador considera que contribui para um certo mito em cima do Nirvana? No sentido de tratar o material inédito como raridade.

JF: Não acredito que contribuo para um “certo mito”. Na verdade o Nirvana/Kurt Cobain já viraram um mito desde o lançamento de Nevermind. Muita gente odeia, muita gente gosta. É o mesmo que açaí, eu odeio, mas tem gente que ama! Hehehe.

Agora no sentido de tratar algo inédito como raridade eu sempre faço. Sempre estou entrevistando pessoas do mundo todo atrás de material inédito e, acredite, eu sempre acho algo interessante. Tenho memória de elefante, sempre que vejo alguma foto sei dizer se ela é nova ou não, até mesmo sei confirmar a data do concerto. É estranho!

VS: Você também tem um acervo grande relacionado ao Festival Hollywood Rock de 1993, principalmente os shows de São Paulo. Você tinha idade pra ir na época? Qual é o seu interesse por esse festival?

JF: Infelizmente não. Eu não tinha idade suficiente para ir ao festival! O meu interesse pelo Hollywood Rock ’93 é puramente pelo Nirvana. Foram shows caóticos, totalmente diferentes do que o Nirvana costumava fazer. Antes de surgir algumas gravações e fotos dos shows de São Paulo as pessoas apenas especulavam. Quando percebi que a procura por informações era grande, comecei a me especializar no mesmo. Acho que comecei a minha coleção sobre o Hollywood Rock em 2005, depois disso nunca mais parei. Acabei criando o grupo Hollywood Rock 1993 no Facebook com o intuito de resgatar mais materiais que eu não fui capaz de encontrar e, claro, primeiramente materiais do Nirvana! hehehehe…

VS: Esses shows do Nirvana no Brasil entraram para a história da banda, inclusive aparecem no documentário Montage of Heck. Você acha que resgatar a memória desse festival contribui para a história do rock nacional/internacional? Você se considera um pesquisador musical?

JF: Acredito que sim. O Nirvana fez história no Brasil e o Brasil fez história na carreira do Nirvana. Muita coisa que está no In Utero foi criada ou lapidada em São Paulo e no Rio de Janeiro. Acredito que não só o Hollywood Rock de 1993 caiu no esquecimento, vários outros festivais e concertos caíram no esquecimento dos brasileiros. O que me conforta é saber que existem pessoas por aí como eu, sempre resgatando histórias de várias bandas. Claro, na verdade eu me considero um “Historiador sobre Nirvana”. Faço isso por prazer e acabei adquirindo várias habilidades relacionadas a banda.

VS: Ainda falta algum item importante para completar o seu acervo?

JF: Olha, como perdi um pouco de interesse na minha coleção física, acho que não existe exatamente um único item importante. Ainda existem várias gravações de shows do Nirvana que nunca foram encontradas, sejam elas gravações amadoras ou não. Meu objetivo é tentar encontrar todas, sei que é impossível, mas não custa nada tentar. Todos os itens são importantes, mesmo aquela gravação que tem apenas 5 segundos de duração.

Sobre o autor(a):
Fã de rock alternativo, apaixonada por Smashing Pumpkins, The Jesus and Mary Chain, Bauhaus e Jeff Buckley. Nas horas vagas escreve para o Vi Shows e para o blog Sopa Alternativa (http://sopaalternativa.com.br/).
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